sábado, 17 de outubro de 2026

CULTURA AFROAMAPAENSE

Ciclo do Marabaixo 2026 encerra celebrações e reforça preservação da identidade cultural amapaense

Com participação popular, fortalecimento dos barracões e apoio do Governo do Estado, tradição centenária encerra mais uma edição e segue mobilizando as comunidades para 2027.

Talismã Comunicação
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No barracão da Tia Biló, os mastros da Santíssima Trindade e do Divino Espírito Santo foram derrubados ao som das caixas de Marabaixo, marcando um dos momentos mais simbólicos do encerramento do ciclo
No barracão da Tia Biló, os mastros da Santíssima Trindade e do Divino Espírito Santo foram derrubados ao som das caixas de Marabaixo, marcando um dos momentos mais simbólicos do encerramento do ciclo · Foto: Gerge Duarte

Após dois meses de celebrações, missas, novenas e rituais, o Ciclo do Marabaixo 2026 foi encerrado no último fim de semana com a tradicional derrubada dos mastros da Santíssima Trindade e do Divino Espírito Santo, durante o Domingo do Senhor, e a escolha dos festeiros responsáveis pela organização da festividade em 2027. Os sete barracões das zonas urbana e rural de Macapá, que mantêm viva essa tradição secular, contaram com incentivo financeiro do Governo do Estado do Amapá (GEA), por meio da Fundação Marabaixo e da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).

Crédito: Volney Oliveira
Derrubada dos mastros da Santíssima Trindade no barracão Azebic
Crédito: Felipe Andrade
Família das pioneiras Natalina e Gertrudes Saturnino na derrubada do mastro da Santíssima Trindade

                                       De 14 a 17 de junho, o Governo do Estado promoverá mais um momento de valorização, conhecimento e integração da população com essa tradição centenária: a Central do Ciclo do Marabaixo, que terá como atração nacional a cantora Alcione.

O Ciclo do Marabaixo é uma manifestação cultural e religiosa preservada por famílias afrodescendentes que levaram para os bairros Laguinho e Favela, atual Santa Rita, e para as comunidades de Casa Grande e Campina Grande os ritos, os costumes e os louvores dedicados à Santíssima Trindade e ao Divino Espírito Santo. Seu significado para a cultura amapaense é considerado um legado histórico de preservação da memória coletiva. A importância da manifestação foi reconhecida oficialmente em 2004, com a instituição do calendário oficial do Ciclo do Marabaixo. Em 2018, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou a manifestação como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Crédito: Volney Oliveira
No barracão Dica Congó, o encerramento dos festejos também contou com um cortejo pelas ruas do bairro da Favela, em homenagem à Santíssima Trindade

Em 2026, o tema "Encontro e Saberes da Nossa Terra" norteou toda a programação, realizada de 4 de abril a 7 de junho, período em que foram cumpridos todos os rituais tradicionais. A Santíssima Trindade é celebrada nos barracões do Laguinho, Santa Rita, Campina Grande e Casa Grande. Já o Divino Espírito Santo é homenageado nos barracões da Tia Biló e do Mestre Pavão, ambos localizados no Laguinho.

Crédito: Barracão Campina Grande
No barracão da Santíssima Trindade da Campina Grande, fé e emoção marcaram a dispudta da bandeira pelos festeiros

O corte dos mastros no Curiaú, os cortejos da murta e dos mastros, a levantação dos mastros, missas, novenas, bailes, rodas de Marabaixo, a distribuição de alimentos e da tradicional gengibirra, além da derrubada dos mastros, compõem o calendário oficial da festividade. Desde 2025, outro atrativo passou a integrar a programação: a Corrida do Ciclo do Marabaixo, promovendo integração entre os barracões e a população.

Todas essas atividades contaram com apoio do Governo do Estado, por meio da Fundação Marabaixo, com investimento de R$ 1,796 milhão destinado ao fortalecimento dos barracões, à realização da Corrida do Ciclo e à Central do Ciclo do Marabaixo.

No Domingo do Senhor, os mastros erguidos durante o ciclo foram derrubados nos barracões da Favela — Tia Gertrudes, Associação Zeca e Bibi Costa (Azebic) e Dica Congó —, do Laguinho — Tia Biló e Mestre Pavão — e das comunidades Campina Grande e Casa Grande. As bandeiras foram então entregues aos festeiros de 2027, que terão a missão de organizar a próxima edição da celebração ao lado das famílias tradicionais.

Crédito: Volney Oliveira
No barracão da Azebic, entre orações, cantos e muita emoção, os devotos acompanharam a tradicional entrega da bandeira da Santíssima Trindade aos festeiros de 2027

No barracão do Mestre Pavão, os filhos do pioneiro, Paulo e Felícia Ramos, serão os próximos festeiros. Já no barracão da Dica Congó, Alexandre Queiroz e Dayane Brás receberam as bandeiras. Dançadeira da Associação Raízes da Favela, Dayane, de 36 anos, conta que fez uma promessa em 2024 diante do oratório onde fica a coroa da Santíssima Trindade e teve sua graça alcançada.

"Agora chegou a minha vez de pagar minha promessa. Vou me dedicar para que seja mais um lindo ciclo em louvor à Santíssima Trindade", afirmou.

Crédito: Mônica Nasco
Dayana, festeira do barracão Dica Congó e a diretora-presidente da Fundação Marabaixo, Josilana Santos

A diretora-presidente da Fundação Marabaixo, Josilana Santos, avaliou a edição de 2026 como um marco para a resistência cultural e a preservação da memória ancestral do Amapá. Segundo ela, a organização das famílias e associações responsáveis pelos festejos, aliada à grande participação popular nos barracões, demonstrou o fortalecimento da consciência sobre a importância do Marabaixo para a identidade cultural amapaense.

"Os sete barracões cumpriram integralmente o ciclo, o que é fundamental para que a tradição e a religiosidade permaneçam vivas. As associações estão de parabéns pela organização e por abrirem as portas de suas casas e oratórios para receber devotos e visitantes. Não registramos ocorrências relacionadas à poluição sonora, descumprimento de horários ou qualquer outro tipo de infração. O investimento do Governo do Estado alcançou os resultados esperados e fortaleceu ainda mais essa importante manifestação cultural", destacou.

Crédito: Lucas Mota/GEA
A diretora-presidente da Fundação Marabaixo, Josilana Santos

Central do Ciclo do Marabaixo 2026

O Parque Residência será o palco da Central do Ciclo do Marabaixo, espaço que reunirá elementos, rituais, marabaixeiros e representantes dos barracões que realizam a festividade. A programação contará com exposições, apresentações de dança, rituais tradicionais, degustação de comidas e bebidas típicas, oficinas, atividades educativas e o show nacional da cantora Alcione.

No dia 17 de junho será realizado o VI Congresso Estadual do Marabaixo, no Teatro Municipal Fernando Canto, com rodas de conversa, debates e interação com o público. Durante o evento também será lançado o documentário "Açucenas – Tia Biló: Centenário de Fé, Luta e Tradição".

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